As viagens de caravana em família deram origem a uma ideia: criar histórias em português que os filhos pudessem ouvir pelo caminho. Hoje, Sara e Francisco, portugueses a viver na região de Lausanne desde 2014, contam com onze temporadas e mais de 300 mil reproduções do podcast gratuito Bem Mais Que Uma História.
Sara é de Coimbra, tem formação em neurobiologia e foi investigadora durante quinze anos. Atualmente, é professora. Francisco cresceu em Zimão, uma aldeia de Trás-os-Montes, e trabalha como gestor de projetos digitais. Fora do trabalho, encontram na música e nas histórias um espaço que partilham com os três filhos, Tiago, Tomé e Tadeu.
Francisco escreve, produz e compõe. Sara narra e dá voz à maioria das personagens. Os filhos também participam, e cada episódio ganha uma aguarela original da artista Teresa Torres.
Depois de levarem o projeto ao palco pela primeira vez, em Bulle, Sara respondeu às perguntas do Ecos da Comunidade. Falou-nos da vida na Suíça, do português em casa e do trabalho que existe por detrás de cada história.

Ecos da Comunidade — Para os leitores que ainda não vos conhecem, quem são a Sara e o Francisco? De que regiões de Portugal são e o que vos levou a construir a vossa vida na Suíça?
Nós somos um casal português, pais de três rapazes, e partilhamos uma grande paixão pela música. Eu sou de Coimbra, sou formada em neurobiologia e fui investigadora durante quinze anos. Hoje sou professora de ciências e afins. O Francisco é gestor de projetos digitais e, fora do trabalho, dedica-se à escrita, à música e à produção do nosso podcast.
Ele cresceu em Zimão, uma aldeia de Trás-os-Montes, onde nos conhecemos, mas foi em Coimbra que começámos a namorar. Por razões profissionais, já vivemos em Londres e em Paris, onde nasceram os nossos gémeos, Tiago e Tomé.
Desde 2014 vivemos na região de Lausanne, onde encontrámos uma vida mais tranquila para a nossa família, espaços verdes lindíssimos, mas também oportunidades para continuarmos os nossos percursos profissionais. Foi aqui que nasceu o Tadeu, o nosso terceiro filho.
Ecos da Comunidade — Enquanto pais de três filhos a crescer na Suíça, como vivem a presença da língua portuguesa em casa? Que dificuldades encontram e o que tem ajudado a manter essa ligação?
Em casa, sempre falámos português. Foi sempre a nossa língua em família. Os nossos filhos entraram muito cedo no sistema de ensino suíço, por isso o francês faz parte do dia a dia deles, na escola e com os amigos, e o português acompanha os momentos em família. Para nós, adultos, esta passagem de uma língua para outra pode parecer complicada, mas, para eles, é muito natural.
Não temos sentido grandes dificuldades nesse aspeto. Hoje é fácil ter acesso a livros, música e histórias em português, e tudo isso ajuda a manter a língua presente.
É muito importante para nós que consigam comunicar com a família em Portugal e que sintam essa ligação. Queremos que o português faça parte da vida deles de forma natural, associado às pessoas e às coisas de que gostam.
Ecos da Comunidade — Como surgiu a decisão de criar o vosso próprio podcast de histórias infantis? Recordam-se do momento em que a ideia passou a ser um projeto a sério?
A ideia nasceu nas nossas viagens de caravana. Fazíamos muitas horas de estrada e ouvir histórias era uma das coisas de que os miúdos mais gostavam. Acabou por se tornar um momento partilhado por toda a família.
Na altura, encontrávamos pouca oferta em português e ouvíamos sobretudo podcasts franceses. Havia um de que gostávamos particularmente, o «Encore une Histoire». Enquanto os miúdos ouviam, eu e o Francisco comentávamos que gostávamos de encontrar uma proposta em português com aquele ritmo e aquela forma de contar as histórias.
E um dia, no meio de uma destas conversas, o Francisco disse: «Porque é que não fazemos nós um podcast de histórias para as crianças?».
A parte da produção e da gravação não era uma dificuldade, porque, como o Francisco sempre fez música, já tinha todo este conhecimento. Mas faltavam as histórias. Nunca tínhamos escrito histórias infantis!
O Francisco resolveu experimentar e, numa semana, escreveu «O Martim e a Fada dos Dentes», inspirado na quantidade de cartas e chocolates que a fada já tinha levado lá para casa. Gravámos e partilhámos com a família e os amigos mais próximos, para perceber se o projeto tinha pernas para andar. Foi aí que a ideia começou a tornar-se algo concreto.
Desde o início, quisemos dar vida às histórias através das vozes, da música e dos efeitos sonoros. E sempre pensámos num espaço para toda a família, com elementos que também pudessem interessar aos adultos.
Ecos da Comunidade — Como nasce um episódio do Bem Mais Que Uma História? Contem-nos o caminho desde a primeira ideia até à gravação e como dividem esse trabalho.
Tudo começa com o Francisco. As ideias podem surgir de situações que vivemos com os nossos filhos, de sugestões dos ouvintes ou de uma imagem que lhe fica na cabeça. «O chato do meu irmão», por exemplo, nasceu dessa relação entre irmãos que estão sempre a embirrar um com o outro, mas que, no fundo, não sabem viver um sem o outro.
A escrita costuma ser a parte mais difícil para ele. Mas diz que há um momento em que a história parece ganhar vida própria e as palavras começam a sair com mais facilidade.
A seguir vem a gravação, normalmente ao fim de semana, de manhã, enquanto os miúdos ainda estão meio a dormir e a casa está mais sossegada. Eu faço a narração e a maioria das vozes. É um processo muito intuitivo: antes de interpretar uma personagem, tento imaginá-la e perceber como ela é.
Gravamos uma personagem de cada vez. O Francisco edita, coloca as falas na ordem certa e acrescenta os efeitos sonoros e a música. Também é ele quem compõe as músicas originais e escolhe a restante banda sonora. Os efeitos dão movimento à história; a música ajuda a criar o ambiente e a emoção.
No final, sou bastante exigente: custa-me dar um episódio por terminado enquanto não sinto que está tudo como deve ser. Queremos que quem nos ouve consiga entrar na história e imaginá-la de olhos fechados.

Ecos da Comunidade — Que papel têm os vossos filhos no projeto? Há alguma reação, sugestão ou participação deles que vos tenha ficado especialmente na memória?
Eles foram a principal razão para começarmos e continuam muito presentes no projeto. Muitas histórias nascem de frases que disseram, de alguma asneira que fizeram ou de uma conquista deles. Também participam nas gravações, dando voz a algumas personagens.
Tenho um carinho especial pelas participações nas primeiras histórias, «O Martim e a Fada dos Dentes» e «O chato do meu irmão». Já passaram cerca de três anos e as vozes deles mudaram muito. Quando voltamos a ouvir esses episódios, é como regressar àquela altura. Acabaram por se tornar também uma memória da nossa família.
Ecos da Comunidade — Cada episódio tem também uma aguarela original. Quem está por detrás dessas ilustrações e como se constrói a ligação entre a história que se ouve e a imagem que a acompanha?
As ilustrações são da Teresa Torres, uma artista plástica e investigadora em educação artística que, por sorte nossa, também é da família. Quando lhe lançámos o desafio, o convite era para fazer oito ilustrações, uma para cada episódio da primeira temporada. Três anos e mais de oitenta histórias depois, continua connosco, a criar uma aguarela original para cada episódio.
Quando termina uma história, o Francisco envia-lhe um resumo. A Teresa tem total liberdade para a interpretar à sua maneira. Dá cor e forma às personagens e aos lugares, mas acrescenta também o seu olhar e outras possibilidades de leitura da história.
Uma das partes de que mais gostamos é receber um e-mail da Teresa com uma nova ilustração. É a primeira vez que vemos aquela história pelos olhos de outra pessoa, e isso surpreende-nos sempre. O trabalho dela tornou-se uma parte muito importante da identidade do Bem Mais Que Uma História.



Ilustrações: Teresa Torres - Cedidas pelo projeto Bem Mais Que Uma História
Ecos da Comunidade — No vosso primeiro contacto, falaram em onze temporadas e mais de 300 mil reproduções. O que mais vos surpreendeu neste crescimento? Há alguma mensagem de uma criança ou de uma família que vos tenha marcado?
Quando começámos, pensávamos sobretudo em criar histórias que ficassem, que os nossos filhos pudessem voltar a ouvir e, quem sabe, um dia partilhar com os filhos deles. Há muito de nós nestas histórias, incluindo valores e mensagens em que acreditamos. Nunca imaginámos chegar a onze temporadas e a mais de 300 mil reproduções.
O que mais nos surpreende é perceber que algo que fazemos em casa passou a fazer parte da vida de tantas outras famílias. As mensagens dos nossos pequenos ouvintes são uma parte muito importante disso. Algumas entram nos episódios especiais a que chamamos «Clube», e adoramos essa possibilidade de ouvir quem nos ouve.
Cada temporada tem oito episódios e, quando acabamos uma, às vezes pensamos: «Será que vamos conseguir fazer outra?». Depois chega uma mensagem de uma criança, de um pai ou de uma mãe, e voltamos a sentir vontade de continuar.
Essa relação com quem está do outro lado dá-nos uma motivação enorme. E assim seguimos, de temporada em temporada, como na nossa história «Uma nota de cada vez».
Ecos da Comunidade — Como conseguem conciliar o podcast com o trabalho e a vida familiar? Sendo um projeto gratuito, o que vos permite mantê-lo e quais são os maiores desafios?
O que tem mantido o projeto é, sobretudo, o prazer de criar e de partilhar este trabalho. O podcast permite-nos juntar a escrita, a interpretação e a nossa paixão pela música, e dá-nos muita satisfação ouvir o resultado final.
Fazemo-lo no tempo que sobra do trabalho e da vida familiar. Quando os miúdos vão para a cama, trabalhamos um bocadinho no podcast, muitas vezes noite após noite. O maior desafio é precisamente encontrar tempo e energia para conciliar tudo. Há muito trabalho por detrás de cada episódio.
Talvez, no futuro, possamos lançar um livro que ajude, por exemplo, a comprar novo material ou a investir em publicidade. A ideia é que o projeto possa continuar sem depender de uma fonte de rendimento. Queremos, sobretudo, preservar a nossa liberdade criativa.
Ecos da Comunidade — Deram, entretanto, os primeiros passos com espetáculos ao vivo na Suíça. Como foi encontrar o público frente a frente e que momentos guardam dessas experiências?
A nossa primeira apresentação foi no dia 25 de outubro, no Comptoir Gruérien, em Bulle, a convite da associação Portugal en Mouvement. Já tínhamos pensado em levar as histórias ao palco, e este desafio fez-nos antecipar os planos.
Escolhemos «Liberdade 25», pela ligação a um dos acontecimentos mais marcantes da história recente de Portugal e por nos lembrar que a liberdade é algo precioso, de que temos de cuidar.
Quisemos levar para o palco os elementos que fazem parte do podcast: a interpretação, a música e os efeitos sonoros. Preparámos o espetáculo com os nossos três filhos, que também são músicos, e procurámos criar ao vivo a mesma envolvência que trabalhamos nas gravações.
O que mais me marcou foi ver e ouvir as crianças a cantar as nossas músicas e a reagir à história, ali à nossa frente. Poder acompanhar essas reações no momento e sentir a energia do público foi muito emocionante.
Ecos da Comunidade — O que gostariam de fazer a seguir com o Bem Mais Que Uma História? De que forma podem as famílias, escolas e associações portuguesas na Suíça acompanhar o projeto ou colaborar convosco?
Queremos desenvolver a vertente ao vivo e levar as nossas histórias a mais lugares. Esta primeira experiência deu-nos muita vontade de continuar.
As famílias podem seguir gratuitamente o Bem Mais Que Uma História no Spotify e acompanhar o projeto no nosso site, bemmaisqueumahistoria.pt. Gostamos muito de receber mensagens dos pequenos ouvintes, por isso podem também enviar-nos as suas reações e participações.
As escolas e as associações podem partilhar o podcast com os seus alunos e associados e contactar-nos para apresentações ao vivo ou outras colaborações.
Acima de tudo, gostávamos que o Bem Mais Que Uma História continuasse a ser uma boa desculpa para ouvir português e passar um bom momento em família.
De uma conversa durante uma viagem de caravana às primeiras histórias em palco, Sara e Francisco foram construindo o projeto no tempo que sobra entre o trabalho e a vida familiar. Pelo caminho, ficaram as vozes dos filhos a crescer e chegaram as mensagens de outras famílias que também passaram a ouvir.
O Ecos da Comunidade agradece à Sara e ao Francisco a partilha do seu percurso e à Teresa Torres a disponibilização das suas ilustrações.
Entrevista por escrito: Ecos da Comunidade
Respostas: Sara