Crónica de opinião — Paulo Ferreira
Há uma pergunta que pode ganhar outro peso ao fim de alguns anos de emigração: onde é a nossa casa?
A resposta parece simples até tentarmos dá-la. Em Portugal ficaram as origens, a família, os amigos de infância e os lugares que conhecemos quase de olhos fechados. Na Suíça fomos construindo uma vida: o trabalho, a casa, as amizades, as rotinas. Para alguns, foi também aqui que os filhos cresceram e os netos nasceram.
Quando chega a altura de ir a Portugal, dizemos muitas vezes: «Vou a casa.» No fim das férias, ao preparar as malas para voltar à Suíça, podemos dar por nós a dizer exatamente o mesmo.
Talvez as duas coisas sejam verdade.
A vida vai acontecendo aqui
Quem emigra nem sempre traz um plano para ficar décadas. Há quem venha juntar algum dinheiro, melhorar a vida da família ou experimentar uma oportunidade de trabalho. Depois, um contrato prolonga-se, os filhos entram na escola, surgem amizades e os anos passam.
Entretanto, começamos a conhecer os vizinhos. Encontramos pessoas com quem podemos contar. Temos um café habitual, um caminho de que gostamos, uma associação onde participamos. O país onde chegámos como estrangeiros passa a fazer parte da nossa história.
Mesmo assim, a distância continua a sentir-se. Num aniversário a que não conseguimos ir, num almoço de família acompanhado por fotografias no telemóvel ou na vontade de visitar os pais com mais frequência.
Portugal também vai mudando
Nas férias, procuramos aquilo de que sentimos falta durante o ano. Queremos estar com todos, voltar aos sítios de sempre e aproveitar cada dia.
Mas nem sempre encontramos tudo como deixámos. Os mais novos cresceram, algumas lojas fecharam, os amigos têm outras rotinas. Às vezes, falta alguém à mesa.
Nós também mudámos. Habituámo-nos a outros horários, a outra maneira de trabalhar e a uma vida que quem ficou em Portugal nem sempre conhece por inteiro. Podemos sentir saudades de Portugal quando estamos na Suíça e sentir falta da nossa rotina suíça quando estamos em Portugal.
Isso pode ser difícil de explicar, até entre pessoas próximas.
É preciso escolher?
Cada emigrante vive esta relação à sua maneira. Há quem tenha a data do regresso bem definida. Há quem queira ficar. E há quem continue a adiar essa decisão, porque tem pessoas e motivos importantes dos dois lados.
Sentirmo-nos em casa na Suíça não apaga a ligação a Portugal. E gostar de voltar a Portugal não diminui a vida que construímos aqui.
Talvez possamos aceitar que a resposta àquela pergunta mudou com o tempo. Que hoje temos mais do que um lugar a que chamamos casa.
E tu? Quando dizes «vou a casa», estás a pensar em Portugal, na Suíça ou nos dois?